terça-feira, 14 de setembro de 2010

palavras + palavras
                  


circulam as palavras 
                       repetidas
                            tangíveis
                                   vazias


e nenhuma mensagem
resta 
                     apenas o rumor
                                  inconcreto
                                             obtuso

e o perdido gesto de uma ideia
                                          segura
                                                 viva
                                                       útil

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Que outro nome




despidos dias
estes
o sol doente
                 escurecem

o homem pendurado
nas nuvens
                desmaia o cedro

passo incerto
e talvez parado

que outro nome
para tanto vazio
                desmaia o cedro









                

        

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mãos ao Trabalho




Estou de chegada e já dou mãos ao trabalho: livros para um lado, papeis para outro, indo até à leitura do correio e  dos jornais que me caem na mesa de ofício. É então que leio um artigo no jornal Diário do Minho com o título «No Rescaldo do Incêndio no Gerês», assinado por Álvaro Oliveira. Atenção, não é de minha autoria! Tão pouco me identifico com o estilo do escrito.
Apenas um reparo: trata-se de um claro atropelo à protecção do nome literário consagrado no art. 29 dos Direitos de Autor. Assim:

« 1 - Não é permitido a utilização do nome literário, artístico ou científico susceptível de ser confundido com outro nome anteriormente usado em obra divulgada ou publicada.
3 - Ninguém pode usar em obra sua o nome de outro autor, ainda que com a autorização deste.»


Pronto, tomadas a devidas precauções para escalpelizar possíveis confusões, dou novamente mãos aos arrumos e, por fim, abro o meu blogue. Salta-me à ideia publicar um poema que registei algures em Sesimbra. Não. Como são muitas as perguntas e as mensagens sobre o raio do artigo, opto por este breve esclarecimento. Já não estou de chegada, mas de saída. Para voltar... com algo mais interessante.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pacto com o diabo



Alguns  canais de TV portugueses dão a ideia que estabeleceram um pacto com o diabo:
Fechar as portas dos seus estúdios aos homens das Artes e das  Letras; e abrir as mesmas
a tudo quanto é vidente, cartomante, bruxa e curandeiro, numa típica aposta na anti cultura
que só favorece a estupdez. É isso que desgraçadamente temos!
Depois queixam-se que Portugal tem o mais baixo índice de leitura da Europa.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Escrevo para não morrer

Escrevo para não morrer. Habito o interior das palavras rudes e incómodas e oiço o choro da criança que segue o trilho do eléctrico para não perder o andar.

Espero os dias que enumero com os dedos até que a terra se transforme numa flor de trigo a cingir o olhar das crianças que procuram um pão. É aqui que descubro o símbolo da grande caminhada e o signo mais marcante dos meus dias: ir até ao fim da estrada com as palavras coladas aos dedos. E remeter-me ao silêncio seria exactamente igual a não estar solidário com os que sofrem a desumanização dos novos tempos.

E se descobri, um dia, ser tão indomável quanto insubmisso, e não me deixando tanger pelos gananciosos fazedores de crises e aos altamente instalados na vida, que um dia fizeram dos nossos pais escravos, a estes, pela escrira, chapo-lhes com a grandeza da teologia da libertação. É então que escrevo para não morrer.

terça-feira, 13 de julho de 2010


À Mãe
Porque todos os dias são seus



Anoitecia cedo. Uma discreta luz visitava-me no quarto com um beijo sublime ao deitar da cama. A magia de um conto nocturno, às vezes um poema lido como ninguém até agora ainda leu, ou aquelas palavras pausadas a narrar uma estória de que eu nunca chegava a ouvir o fim, ao deixar-me adormecer embalado por numa tranquilidade de planícies frescas. Antes, sentia os lábios de minha mãe pousarem-se divinalmente na minha face esquerda e a palma da sua mão a passar, levíssima, pela cabeça, num último afago de anjo. O seu perfume enchia o quarto por algumas horas e eu ficava como um pássaro aconchegado no ninho, entregue à pureza dos sonhos, a sorrir – dizia a mãe – com um ar de quem vive momentos de plena felicidade. Adivinhava ser eu passeando-me por um fragmento de sonho, naquele imenso campo, a colher flores selvagens para lhe oferecer, num ramo enfeitado de estrelas. E tantas vezes aquela santa perdia horas a contemplar a tranquilidade do meu enigmático sono e esse indecifrável sorriso! Sei que estava ali junto de mim, sentada na cadeira de embalar, e ali também ela chegava a adormecer. Depois, saía do quarto muito devagar, pé ante pé, levando o silêncio no último olhar.

Andava pelos meus três, talvez quatro anos. Era o tempo das mais ingénuas e mais pertinentes perguntas: «Mãe, porque é que as cerejas nascem aos pares?», ou assim: «Porque é que só fazemos anos uma vez por ano?» De súbito, uma ideia de colo. O mais nobre trono que todos em meninos desejamos. Mãe... e as mãos erguidas junto ao ventre à espera dos seus braços.

Trago desta infância um rol de imagens inesquecíveis. Recordo aquele campo fronteiriço à casa com giestas e flores selvagens, e o pão com geleia que minha mãe me oferecia no dia dos meus anos, o seu olhar que me falava tão fundo, aquele sorriso numa expressão de alma generosa e aquele gesto tão doce e tão imensamente terno a dar-me o pão com geleia: «hoje fazes anos, meu filho!»

Coisa rara, um pão com geleia só em dia de aniversário! E o pão não era tudo: mas o gesto, o sorriso, o olhar. Aquele olhar que falava. E o rosto? A flor mais bela de que nunca saberei dizer o nome. Mãe? Era isso. A palavra nunca gasta, incansável sempre, a sugerir ternura, a voz rente às mãos inquebráveis, sempre estendidas à oferta: a grandeza do pão, um beijo a seguir e, logo depois, a mão. É verdade, a mão: um mundo que me segurava no patamar sinuoso dos dias.

Que vida a minha! Deixou-me cedo. Sem que eu lhe retribuísse, uma vez que fosse, um dos tantos carinhos que me deu. Nem o gosto de lhe tocar, com a polpa dos meus dedos, numa daquelas rugas tão belas que trazia desenhadas no rosto. Já lá vão tantos anos. Parece que foi ontem! E, por Dezembro, no dia dos meus anos, nunca mais comi um pão com geleia. Mas ainda hoje sinto a sua mão segurando um pão na minha mão.



quinta-feira, 8 de julho de 2010

Apresentação em Cerveira


A Organização da Feira do Livro de V. N. de Cerveira e as edições Calígrafo, convidam V. Exa a estar presente na apresentação do livro Manto de Sombras de Álvaro de Oliveira, que ocorre na Biblioteca Municipal desta vila, no próximo domingo, dia 11 de Julho, pelas 18h00.

A apresentação da obra está a cargo da Escritora Adelaide Graça.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sobre a chuva


enigmático olhar

só

sobre a chuva
se dispõe um lírio

e morre


          * Inventar o Olhar

sábado, 26 de junho de 2010

O meu mundo assim


 I - Os senhores do poder convidaram-me e levaram-me em luxuosos caros de visita a bibliotecas, museus, templos e monumentos do meu país. Aí pude apreciar a beleza da música, da dança, da pintura, da escultura, da literatura, do teatro e do cinema, obras de tantos artistas, homens e mulheres que contribuíram com o seu saber e a sua arte para enriquecer o meu país. Gostei.

II - Os senhores do poder mostraram-me grandes avenidas, enormes estátuas, as maiores praças e os mais faustosos palácios da cidade onde vivem os Presidentes, os Generais e os Cardeais todos do meu país. Também gostei.

III - Estava um sol radiante, e os senhores do poder quiseram que os acompanhasse à beira mar para ver uma infinidade de iates para recreio, barcos que são autênticos palacetes no mar, cruzeiros e outras embarcações de luxo para gozo de férias dos senhores do poder do meu país.

IV - Do outro lado da praia, vi outros palácios bordados a ouro e a prata e rodeados de magníficos lagos de água e majestosos jardins onde vivem os senhores do poder, os banqueiros e os bem sucedidos empresários do meu país. Até aí tudo era beleza, esplendor, luxo, exuberância e riqueza no meu país. Confesso que fiquei maravilhado.

V - Nesse dia, interroguei os senhores do poder do meu país. Assim: - Afinal, se viveis tão bem instalados, cheios de ouro e prata, e rodeados de tanta beleza e tanta maravilha, porque razão fazeis a guerra e com ela destruis centenas de cidades e milhões de seres humanos?
Logo me apercebi que os senhores do poder ficaram muito inquietos e muito irritados comigo. Paciência... era eu que desconhecia a ingenuidade ou a provocação da minha pergunta.
De seguida, pedi aos senhores do poder que me mostrassem as ruas e os bairros onde mora o povo do meu país. De repente, os guardas do poder taparam-me os olhos e esconderam-me no deserto onde não podia ver nada nem falar para ninguém. Não gostei. Contudo, penso que era eu ainda demasiado ingénuo para desconhecer a provocação do meu pedido.

VI - Quando, pela noite, os guardas do poder adormeceram, consegui fugir, e, orientado por uma estrela, fui ver as ruas e os bairros pobres onde mora o povo do meu país nas mais miseráveis e inumanas condições. Fiquei triste, muito triste.
Depois assisti a uma enorme manifestação de trabalhadores que tiveram a coragem de dizer não a uma lei que os senhores do poder legislaram e que conduz de novo os trabalhadores do meu país à condição de escravos. Foi então que vi os guardas do poder espancar violentamente os trabalhadores e os melhores filhos do povo do meu país. Aqui deixei de ser ingénuo. E revoltei-me.

VII - Por fim. chegaram os senhores do poder e ordenaram que os guardas do poder do meu país se atirassem contra mim. E aí os guardas do poder não me taparam os olhos nem me esconderam no deserto, mas roubaram-me o olhar e as palavras e prenderam-me como se eu fosse um criminoso assassino.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Inventar o Olhar


sentida tarde de silêncio
aquele adeus junto ao cais

nem outro olhar soubemos inventar

sexta-feira, 18 de junho de 2010

                                                
 José Saramago


Entardeceu agora mesmo:
uma flor de azul visita o lugar da água
porque antecipaste a hora da partida.

 
Não deixas sequer um rastro de silêncio:
ninguém pode calar-te
ninguém pode ignorar-te
e hão-de ter-te aqui durante séculos.





terça-feira, 15 de junho de 2010

Estranho Olhar



A Página é branca. Rumo dos meus passos:
serpentes rastejando a espessa brita.
Ás vezes são tão falsos os abraços
e tão grandes os segredos desta escrita...

Incessante a brancura: estranho olhar.
Nada mais, meu amor, que me pareça
que um verso a outro verso possa dar
à poesia um nome que enlouqueça.

Lá mais para a tarde, à mesa do jantar
guardo num verso a remendada manta
que contém as palavras de um profeta.

Poesia: essa voz que quer cantar
sai do silêncio e no silêncio canta
correndo as veias loucas de um poeta.