sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Licor de Amoras



O sol aquecia os silvados
e só mais tarde colhíamos as amoras
rente aos muros dos dedos

As borboletas pareciam afastar-se
mas ficavam
olhando as nossas mãos tingidas

Só as aves, como nós, sorriam
na exacta hora da partida
e o licor bebiam,  das amoras.



segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O nome do fruto

Junto ao rio o nome do fruto
estendia-se pelo orvalho das manhãs
e o preconceito advertia o olhar:
essa tarde era de vontades proibidas.

As horas passaram desenhando pecados
que nunca o foram pelo fruto
ou esse desejo louco - O meu
que te segurava os seios com mãos.

Junto dos dos salgueiros
só me deste os lábios carnudos 
mas o fruto ainda estava proibido.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011


        
Cláudio Lima (Manuel da Silva Alves)
Poeta - Nascido em Ponte de Lima
e residente em Braga 

Precariedade

Um poema amadurece como as uvas
sem pressa para além da sua pressa
como quem só regressa
chamado pelo sol ou pelas chuvas.

Mas enquanto as uvas apuram sua casta
seu fogo haurindo em elfa vinhateira
meu poema é chama que se gasta
em frouxa e efémera fogueira.

                        (ITINERÂNCIAS)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

BPN


       Os banqueiros, e esta nova geração de políticos falam a brincar...
como se não soubessemos que vamos ser nós a pagar os 500 milhões.
Seria mais sério não o terem dito... e com que lata!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Em véspera de Reis

Com ouro, com mirra e com incenso, em véspera de Reis, o que dos nossos políticos podemos esperar para 2011, é mais insegurança, mais desemprego, mais fome, mais baixas pensões de reforma, piores condições de vida, pior assistência médica e medicamentosa. Enfim, um sem número de coisas que nem ao diabo lembra. Porra para isto!
A pensar no impropério, dizia a velha do Adro que, apesar de tudo, é bem melhor ouvir cantar o Zé Cabra, para fazer rir, a ouvir o presidente da CIP falar da crise, para chatear. O primeiro é um pateta que não sabe o que canta; o segundo é um tanso que sabe o que quer: Rever as leis laborais. Isto é, mais horas de trabalho, menos salário e despedimentos sem indemnizações. Assim, bem podem continuar a comprar Porsches, Jaguares e palacetes que, à laia da crise, nunca o grande patronato viu as suas contas bancárias subirem tão altos patamares financeiros. Até quando?
Na ausência dos Reis Magos, agora só os adivinhos da nova era (“os Mercados”) uns quantos caquécticos gananciosos que põem o mundo de cócoras, a Europa à beira da falência e os governos a arderem nos altos-fornos da promiscuidade.
E nós padecentes e pagantes, no dizer de Boaventura de Sousa Santos, somos as vítimas de um crime que eles cometem contra a humanidade. Porque tanto nos calamos?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

    Natal de 2010





     












Álvaro de Oliveira deseja para os seus amigos e leitores
uma Festa Feliz e um Novo Ano com mais Justiça social,
mais Igualdade e mais Educação, assente na  razão de pensar
que em qualquer lugar Nasce um Menino de verdade que precisa
de leite, de pão, de roupa e de carinho. Para ser um Homem livre.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Coisas do Pai Natal



Na infância, na véspera de Natal, deixava-me arrastar por uma pertinente ansiedade, até que a noite caísse, para ver o fumo sair pelas chaminés das casas. E, só aí, adivinhando a lareira acesa, tinha a percepção exacta do Natal. Chegava a hora da ceia: um fio de azeite a cair sobre antigas melodias. Depois, as rabanadas e a aletria, os figos e o vinho fino. A noite, por essas horas, dobrava-se mais quente ao convívio familiar pelas conversas longas entre sorrisos e afectos, pelas estórias contadas à lareira. Era então que me falavam dessa mítica figura do pai Natal, um velho de barbas brancas e fato vermelho que diziam subir aos telhados e entrar pelas chaminés a distribuir brinquedos pelos meninos. Era injusto esse pai Natal: dava aos filhos dos mais ricos e esquecia os filhos dos mais pobres. Confesso que nunca gostei da sua enigmática imagem. Vim a descobrir, mais tarde, que tudo em seu redor era inventado, e a estória dos brinquedos a maior das mentiras. Afinal, esse pai Natal enquadra-se muito bem no mundo em que vivemos: as coisas, nestes dias de aparente festa, inventam-se, excedem-se, alargam-se na extravagância, oferecem um ar de pura hipocrisia. Nem outra época dava tanto gozo aos patrões (pais natais do mundo ganancioso) para obrigar os governos a rever as leis laborais: Mais horas de trabalho, menos salário, despedimentos sem indemnizações e muito mais de mau que se faz e não se diz.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

outro aroma


amanhã, rente à névoa da manhã,
morrerão todos os cretinos
que hoje te proíbem de escrever
sobre o lugar onde nasceste

amanhã cairão todos os gananciosos
e os donos da hipocrisia
mais refinada do planeta
onde uma gaivota canta sobre as águas.

amanhã, no primeiro sol da manhã,
será teu o vento que te vai às mãos
com o mel e o aroma de mil laranjeiras.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Tributo ao Zeca a Afonso


Sopra o vento pelas praias do mar
Mar de mar
O poema solta-se do cárcere em voo de gaivota
Zeca:
Viemos mais cinco
A música tem o gosto colado das Astúrias
Trouxe outro amigo também. E ainda outro e mais outro…
Viemos muitos mais
O Coro dos tribunais
E, às voltas, como um andarilho
Andamos ainda, vê bem, à procura de quem pintou
este maduro Maio
Ah, mas eu vou ser como a toupeira Fura Fura
Trilharei Portugal
Rasgarei Angola e Moçambique
E se um dia voltar a nascer que seja num moliceiro
Ao teu encontro

Como galinha-do-mato
No gosto verde dos campos
O cheiro rosado das amoras…
Sorvendo-te
Inalando-te
Eu, uma cachopa. Enamorada
Toda enamorada!
Descalça das minhas tamanquinhas, o vestido no regaço
É apenas um salto entre duas rias na barquinha d’Aladim
Entre terras e muralhas, noites e alvoradas, esta mulher lá do Minho
das sete que te fadaram.
Que seja mais um poema o filho da madrugada
O poema sobre quem ainda sopra o vento
do canavial
Solta-se o tempo!
As pétalas escrevem-te na pauta dos sentidos. Estás aí
No vento que foi
Entre o sol e a lua
E na Fuzeta a noite nua. Toda nua: Achega-te a mim

Sou a tua Maruxa.
Nas azenhas a serenata proibida. És tu
Em Vilar de Mouros.
No “Cantar de Emigração” de Rosalía de Castro
E o teu nome escrito. Em Santiago
Nas vilas morenas à espera de serem Grândolas
No vento que ainda não veio
Que se cale a cabra dos doutores na hora das baladas
e canções.
E não me obriguem vir para a rua gritar:
- Venham enlaçados de mãos dadas semear o amor –
Maçaroca, milho verde nas margens deste rio que é pai
Galiza pátria.


                                         Adelaide Graça
                                         Vigo (Verbum) 21/05/2009

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

até quando?

hoje não sei o que escrever. a tarde pesa-me nos ombros, foje-me dos pés e o caminho alonga-se ante o meu olhar. agora passa por mim a madrugada, sem que eu lhe dê a mão, sem que lhe dê uma palavra sobre os milhares de homens, mulheres e crianças sem abrigo que por dentro dela passam solitários ao frio e com fome. procuro escrever e logo risco a primeira letra. quero falar e logo me remeto ao silêncio. questiono e questiono-me: valerá a pena falar de quem nos rouba? chamar ladrão a quem governa? insultar os senhores do  BCE e do FMI? excomungar os donos dos  mercados que não dão a cara? e que mais de tão mau podemos esperar destes velhos trastes? os patrões avançam: «é preciso liberalizar os despedimentos sem indemnizações. contudo, não deixo  que a revolta morra na primeira hora. então, consigo, pelo menos, chamar-lhes canalhas. vou constituindo uma frase e, agora, apercebo-me que lhe posso dar substância. se calhar hão-de roubar-nos mais... se calhar vou inventar outro pejorativo para lhes colocar na testa. ladrão sabe-me a pouco. talvez pulhas, uns reles salteadores armados em intelectuais. até quando?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Passo a Passo


Passo a passo em Anisa faço um traço
pudesse eu segurar tal frescura
e no traço em Anisa me refaço
fazendo-me nos passos da lonjura.

Então, traçado o céu: o grande espaço
onde um passo se expõe destinatário
e quando o homem nega o próprio passo
logo esse passo é dado ao contrário.

E um passo vale tudo e vale nada
levado à medida do espaço
o espaço que se toma a cada passo.

Aí passa por mim a madrugada
depois que faço um traço em cada passo
no passo em Anisa me refaço.