terça-feira, 16 de novembro de 2010

Passo a Passo


Passo a passo em Anisa faço um traço
pudesse eu segurar tal frescura
e no traço em Anisa me refaço
fazendo-me nos passos da lonjura.

Então, traçado o céu: o grande espaço
onde um passo se expõe destinatário
e quando o homem nega o próprio passo
logo esse passo é dado ao contrário.

E um passo vale tudo e vale nada
levado à medida do espaço
o espaço que se toma a cada passo.

Aí passa por mim a madrugada
depois que faço um traço em cada passo
no passo em Anisa me refaço.



domingo, 14 de novembro de 2010

A voz do silêncio

                      Adelaide Graça -  Escritora


Nem sempre solto a voz. Dizem que estou calada, muito calada. Perguntam-me: o que tens? Passa-se alguma coisa? E insistem, insistem…
Simplesmente não solto a voz. Apenas isso.
O silêncio é o bem e o mal. Instala-se na necessidade de me remeter ao fundo de mim para uma sacudidela, um esvaziamento… para me recarregar de novas sensações, de novas coisas e, até, de novas pessoas.
Não me é nada fácil lidar com realidades que, cada vez mais, me remetem ao silêncio com vontade de gritar ao mundo. Digo ao mundo, não a cada nação ou ao povo. Digo ao mundo criado com tudo a que tem direito. A que temos direito. E grito. Grito à minha maneira, à maneira do meu grito. É então que solto o grito. O grito que a voz calava. O grito sufocado. Sofrido.
Há silêncios que me movem, outros só não me paralisam, porque não o permito. Há silêncios que me devolvem vozes e rostos com a luminosidade dos afectos, outros sugar-me-iam o sangue e as vísceras, não fosse a minha inconformada identidade alertar-me do desmesurado vampirismo.
Nem sempre solto a voz. Embargasse-me pela indignação, pelo arrepiante caminho por onde querem que eu siga. Que sigamos.
Neste fundo de mim, onde me esvazio e encho, apelo ao coração, aos deuses e nem sempre à razão, que em algum canto do mundo, em algum planeta, o silêncio silenciado baste para desmascarar o aparentemente correcto, o aparentemente justo, o aparentemente solidário, o aparentemente amigo, o aparentemente feliz…
Emociona-me o silêncio prostrado dos sem-abrigo. É um silêncio quase sem corpo, mas com alma incomensurável. É a alma que os tange, é a única identidade que os desperta apesar de, a maior parte das vezes, terem o rosto sufocado entre o desgrenho da vida e os chãos de ruas e avenidas.
Cresce diariamente o número de homens e mulheres que encontram nestes chãos, nas soleiras das portas, nas entradas das igrejas, nos bancos dos jardins…o abrigo da noite e dos dias.
Cresce diariamente o número de homens e mulheres, que mergulham a cabeça e as mãos nos contentores do lixo, à procura de algum sustento, à procura deles próprios.
Cresce diariamente a fila para uma refeição quente; a mesma fila para a sopa do Sidónio evocada na exposição “Viva a República” na Cordoaria Nacional. É um bom mote para questionar: Mudam-se os tempos? Mudam-se as vontades?
Pouco mais sei do que o silêncio que sobressai daquele pedaço, daquele pequeno pedaço de chão, onde o sem-abrigo jaz cercado de carros com condutores impacientes pela luz verde do semáforo; de transeuntes todos bem, faz de conta; de cheiros a escapulirem dos restaurantes e das pastelarias onde, em esplanadas, ainda muitos se lambuzam.
Passo entre este silêncio e o meu e questiono uma infinidade de coisas: teoremas e filosofias, matérias que assoberbam a memória, sentimentos que nos azedam e corroem, bravuras que rasgaram novos mundos, a tamanha sede de poder em permanente reinação… e a desmedida perda de valores.
São estas caminhadas que me doem por dentro quando, rente a este e outros rostos sufocados pelo desgrenho da vida, o meu (nosso) interior tão ou mais sem-abrigo exala a sopa e a conduto sem negar uma nata bem portuguesa.

                                 


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Numa composição pertinente e muito bem apurada, a partir de palavras ou frases inspiradas no sabor da leitura do livro Manto de Sombras, estes Momentos Soltos de Adelaide Graça, traduzem a evidência e o exemplo literário de como se constrói um belíssimo texto poético, como se trabalha o folguedo das palavras e, a elas, se dá cor, ritmo, harmonia e musicalidade. Parabéns!

Momentos Soltos
      
               De  Adelaide Graça

A dúvida cai. Estatela-se
agora desfeita sobre a mesa
Recordações
a pressa de chegar aonde já cheguei
e o tempo de partida sem ter partido
Depois…
uma janela aberta. Sou que entro
à passagem do vento
A noite caída
as mãos ainda derretidas de frio
um manto de sombras permanece
rompendo os dias inacessíveis
Depois o olhar caído
o rosto rente aos ciprestes e vazio
de súbito tudo tão vazio
Um manto de sombras sobre a luz
e no túmulo
um deus esquecido
Abraça-me a noite
e depois os cedros
a sombra dos ciprestes
um cheiro a murta
e o perdido gesto de uma oração
e nada mais que me prenda a um só gesto
aos passos deste andar
os abraços ainda para lá de mim
e este vento frio a gelar-me os pés
A miragem
um rio entre as mãos
e as mãos vazias
o corpo suspenso na tela
e o meu olhar vadio
No céu um fio de vento
e um corvo azul vem cair-lhe
junto das mãos
Abre-se o céu

e outro sol vem abraçar-me o rosto
um silêncio repousado e fundo
nas palavras presas
e os dedos dobrados nos olhos
O meu olhar é um voo esquecido
e o calor da sala outro silêncio
A distância já ameaça espaços
aperto contra mim os dedos das mãos
há por aí um deus ferido de memória
Respiro para seguir o rosto
e Inês à minha espera
quando o mundo já adormeceu.


             * texto lido na apresentação do romance Manto de Sombras
               Feira do livro, Vila Nova de Cerveira, 11 de Julho de 2010










quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em Três Tempos


Houve um tempo em que me falavam de paz, de igualdade e de fraternidade. Que na terra já se assistia ao fim da infame dualidade: Senhores e Servos. Que não havia lugar para exploradores e explorados. Que nenhum homem seria Mais e nenhum outro seria Menos. E eu fiquei muito feliz. Assim se cumpria um sonho que meu avô me deixara como herança.

Hoje estou triste. Falam-me de governos que não sabem governar. Falam-me de políticos que ganham vencimentos milionários, acumulados a altíssimas reformas.  Que abundam gestores interesseiros e corruptos. Que há patrões cretinos que levam as empresas à falência. Que há assaltos à banca pelos  próprios banqueiros. E, para cúmulo, inventam um só culpado: a Crise! como se fosse coisa que nunca houvesse.

Estou triste. Enganaram-me. Falaram-me de uma terra nova; deram-me uma terra velha. Prometeram-me o Socialismo; deram-me uma ditadura: a de um feroz e selvagem capitalismo. Que herança deixarei para os meus netos?

domingo, 7 de novembro de 2010

Voz Insubmissa

Para quem, como ele, na vida tanto amou a liberdade e, por ela, caminhou até ao limite dos seus dias, com o olhar fixado nas coisa mais simples e mais belas em que a vida, dia a dia, se propunha a convidar, é-me grato dizer que, Artur Garibaldi, é o poeta da exigência e da renovação, revelando-se  sempre como uma voz insubmissa e consequente, a marcar elevados  rumos que assentam em parâmetros de uma escrita  solidária.
Conheci-o em Felgueiras. Um Mestre e um amigo de muitos anos e de muitos combates. Amiúde, marcávamos encontros literários. Umas vezes em Felgueiras, Santa Quitéria; outras vezes em Braga, na Brasileira. E participamos em vários debates de índole cultural, acabando por marcar presença em  algumas antologias poéticas.

Ainda me lembro de uma história passada no dia em que nós, seus  amigos, em Braga,  lhe prestamos justa e merecida homenagem. Cá fora, à porta do restaurante, ele deixou arrastar o olhar pela paisagem e segredou-me em tom baixo, assim como quem revela um segredo: «É muito bonito este lugar!» Pois é, Artur  Garibaldi estava muito longe de saber que, mais tarde, nesse lugar havia de  nascer uma rua que recebeu o seu distinto nome.
Dez anos depois de Garibaldi  se despedir deste mundo (1992), seus filhos, António Manuel e Maria Alice, deram-me a subida honra de me convidar para seleccionar e coordenar alguns dos mais belos poemas deste ilustre  poeta e jornalista, para edição em  livro, tarefa a que prontamente aderi  e pude dar o  título de Voz Insubmissa, honrando a sua memória. Aqui deixo registado um dos poemas publicados na referida obra:

Confissão

«Enquanto escrevo
Faço-o mas não para agradar a alguém
E às vezes até sou desagradável.
Algo na vida há que é miserável.
E eu vivo um sonho que escrevo e levo:
Eu amo o bem.»

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Filosofia

Odeiam-te? Deixá-lo! Segue avante
A tua rota luminosa e linda:
Irmão, quando escurece, o sol não finda,
Há-de surgir de novo no levante!...

                                   do livro    " Voz Insubmissa"



Artur Garibaldi - Poeta e jornalista
         1913 - 1992